Notícia para espantar mamãe
Mamãe, estou grávido!
(A poesia nunca usa camisinha)
Vão me obrigar a casar,
mas não tenho casa nem enxoval
-quero que chova no casamento
para encharcar o buquê do noivo
e fingir um choro no olho da noiva - quem será?
Mamãe, estou grávido!
E não sei quem é a mãe, mamãe.
Vê, já me cresce a barriga
e onde ainda acreditava virgem
um padre recita liturgias
e abençõa as alianças.
Mamãe, estou grávido
e vou ficar falado.
Apontarão no meu rosto o dedo:
"Ali vai um homem da vida!"
E da vida, mamãe,
o que pude conhecer sem me entregar?
A vida prostitui mamãe,
e engravida o corpo com destinos.
Mamãe, e o parto, é difícil?
Precisarei rasgar-me a carne
ou somente a alma?
Não posso simplesmente
regurgitar pela boca a placenta
como a um pensamento que não escuto
bater-lhe o coração no ultra-som?
Terei que ser pai solteiro, mamãe,
ou o mundo me auxilia no que crio?
Devo cobrar ao mundo a pensão devida,
ou vou amargar sozinho a paga de haver filho?
Estou grávido, mamãe,
te aviso: serás avó do rebento de um louco.
(A poesia também é hereditária ou só as melancias herdam as tarjas na casca?)
Mamãe, estou grávido,
e, confesso, pensei num aborto
para poupá-la do incômodo.
Mas a moral não o recomenda
depois dos quarenta anos.
Mamãe, encomendo-te meias
de tricô das tuas horas ociosas
e uma daquelas histórias
que tua ausência me devia.
Pois, mamãe, estou grávido
e acordo enjoado das coisas
que não nasceram de mim
e desejoso de eventos
que Deus esqueceu de inventar.
Mamãe, acho que vou vomitar!
Serão gêmeos? Terão a minha orelha
ou a da mãe? Saberão ouvir?
Nascerão com a cara de joelho
e os olhos ingênuos de todo homem
antes que o emurcheça a fome
nas bochechas e a tristeza
nas íris tão azuis?
Mamãe, estou grávido!
O mundo quer parir de mim.
Acho que serão seis cachorrinhos
e teremos que afogá-los na bacia.
Que pena mamãe, eu já estava me afeiçoando...
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