quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Belo


Há tanta beleza na imperfeição,
Na pureza das formas
Na essência do simples,
O natural vale muito mais que
o belo construído.
As linhas tortuosas do invólucro físico
revelam o ser humano
em sua imparidade encantadora.
Mortos à vida



Debruço na janela da noite.
Os pássaros estão enfermos,
estrelas não cintilam.
Flores calam seus odores,
e a grama, move-se desmaiada.

Hoje o céu se fez anêmico,
de um amarelo terminal.

Fez de mim a desesperada,
palavra que retumba,
o grito no silencio,
Ùltimo suspiro de agonia.
Vazio da Cor do Céu



Na calçada a vida passa de mãos dadas
e se basta
A infância passa, passa o tempo e o
pensamento,
Vida amarela, negra, branca, rósea:
Sem vida.
Tudo vazio e irreflexivo.
A mim, por ser em excesso, resta
apenas a apatia.
Da metafísica



Como viver é entediante.
Nosso companheiro implica com tudo,
O chefe atrasa nosso salário,
A chuva não passa,
O combustível sobe,
Já não posso fumar, já não posso beber,
O corpo começa a ficar flácido,
As juntas doem,
A empregada falta e nosso pai começa a caducar...
A falta de lazer, a pompa, a futilidade alheia, a estética, a moral,
As idéias que nos perturbam (e alguns nem as têm...)

Azar seu que nasceu...

A felicidade é parceira da esperança,
E só o que fazem, é propagar ilusões à nós,
que somos diferentes na forma
mas iguais em tolice.
Velada Melancolia



A diversão do homem é conversar com outro homem
sobre o que ele leu no jornal,
enquanto a mulher, sentada num canto,
divaga em pensamentos imaginando o que seria de sua vida
se suas escolhas tivessem tomado outro rumo.
Se ela é artista, cozinheira ou lavadeira, não importa;
Nenhuma escapa:
nem a Santa e nem a Puta.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Eu tenho muito orgulho em dizer que esse poema foi composto e públicado pra mim, no livro "Outro" por um dos homens que está entre os mais especiais e geniais que conheci até hoje: Santiago Villela Marques. Obrigada amigo querido. Amo você.

Notícia para espantar mamãe

Mamãe, estou grávido!
(A poesia nunca usa camisinha)
Vão me obrigar a casar,
mas não tenho casa nem enxoval
-quero que chova no casamento
para encharcar o buquê do noivo
e fingir um choro no olho da noiva - quem será?
Mamãe, estou grávido!
E não sei quem é a mãe, mamãe.
Vê, já me cresce a barriga
e onde ainda acreditava virgem
um padre recita liturgias
e abençõa as alianças.
Mamãe, estou grávido
e vou ficar falado.
Apontarão no meu rosto o dedo:
"Ali vai um homem da vida!"
E da vida, mamãe,
o que pude conhecer sem me entregar?
A vida prostitui mamãe,
e engravida o corpo com destinos.

Mamãe, e o parto, é difícil?
Precisarei rasgar-me a carne
ou somente a alma?
Não posso simplesmente
regurgitar pela boca a placenta
como a um pensamento que não escuto
bater-lhe o coração no ultra-som?
Terei que ser pai solteiro, mamãe,
ou o mundo me auxilia no que crio?

Devo cobrar ao mundo a pensão devida,
ou vou amargar sozinho a paga de haver filho?
Estou grávido, mamãe,
te aviso: serás avó do rebento de um louco.
(A poesia também é hereditária ou só as melancias herdam as tarjas na casca?)

Mamãe, estou grávido,
e, confesso, pensei num aborto
para poupá-la do incômodo.
Mas a moral não o recomenda
depois dos quarenta anos.

Mamãe, encomendo-te meias
de tricô das tuas horas ociosas
e uma daquelas histórias
que tua ausência me devia.
Pois, mamãe, estou grávido
e acordo enjoado das coisas
que não nasceram de mim
e desejoso de eventos
que Deus esqueceu de inventar.
Mamãe, acho que vou vomitar!

Serão gêmeos? Terão a minha orelha
ou a da mãe? Saberão ouvir?
Nascerão com a cara de joelho
e os olhos ingênuos de todo homem
antes que o emurcheça a fome
nas bochechas e a tristeza
nas íris tão azuis?

Mamãe, estou grávido!
O mundo quer parir de mim.
Acho que serão seis cachorrinhos
e teremos que afogá-los na bacia.
Que pena mamãe, eu já estava me afeiçoando...
Terceto

Três irmãs,
Três Marias
Meia irmã.

A outra metade veio quebrada.

Três mães
Três princípios
Um princípio.

A outra irmã é de um particípio.

A outra irmã
Nem é Marina,
É Masculina.

Serpentina, Repentina, Descortina...
Só;
Somente mera sina.